Música, Poesia

Um ombro

É fácil ser forte quando se tem um ombro onde pousar a fraqueza.

Medeiros/LucasGalgar

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diarismos, Música

Estar longe, ir longe

Agarro-me às últimas 24 horas. Se duvido do prosseguir, agarro-me a elas. Se quase resvalo na dor da distância, agarro-me a elas. Se penso no não sentido das ideas, agarro-me a elas.

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A arte aproxima-nos da terra…

Diz-me Manoel de Barros tem mais presença em mim o que me faz falta,

… que nos esvazia e enche, continuamente e, por isso, nos liberta…

Diz-me John Cage there is poetry as soon as we realise that we posses nothing,

… e é esse o único sentido que levo…

Diz-me Agostinho da Silva é sua única obrigação de se não se regular por mais norma nenhuma que não seja a da mais absoluta liberdade. A qual se manifestaria primeiro por estar livre de todos os sonhos de futuro, os quais só vêem de ser o presente pouco menos do que insuportável (…) é, portanto, na tessitura do presente que nossos bordados deverão lançar o seu matiz: enquanto estamos vivos; única forma de não morrer,

… levar-me, por amor, ao acto.

Diz-me Alfonso Castelao o verdadeiro heroísmo consiste en trocar os anseios en realidades, as ideias en feitos.

Pela distância da terra, pelo livre amor, avanço. E liberto e amo. E à terra hei-de voltar.

Baiuca (music) com Adrián Canoura (videoclip) – Morriña 

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diarismos

Penas

Diz, a gente práctica, que pensamentos (ainda mais os tristes) são só isso: coisas sem matéria e, portanto, sem importância.

Decidi, por isso, ir ao parque:

Apanhei penas.

Passeei pelas ruas com elas junto a mim.

Trouxe-as para casa.

Fotografei-as.

Coloquei-as numa pequena jarra, na mesinha ao lado da cama.

Agora há matéria.

Não me venham dizer da sua não-importância!

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foto: alhures.wordpress 

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Música, Poesia

Da língua

Chorei ao ouvir o quente da sua voz. No dia seguinte, iriam errar na escolha. Mas até lá, havia esperança. Como a houve, quando te cri.

Ali estavas tu, no teu amigo. Ali estava a cidade dos passeios e das sombras. Ali estava a vontade de te amar, sentada num assento ímpar. Ali estávamos, no estrangeiro bem português de língua.

E à noite…

Ah Pessoa, que universalidade essa construída nas menores coisas?
Dizem que a tua última frase foi “I know not what tomorrow will  bring“. Esqueceram-se do cheiro da flor na jarra que apanhaste com ela. Porque com ela sentias amor, cheiravas antes de ver. Não negaste o sentir inverso, por isso, quando deixaste de ver a vida, pudeste ainda cheirá-la. E foi essa a tua última frase, porque poesia foste tu, na incapacidade de ser tudo, deixaste que tudo te fosse. Amado pelas pequenas coisas, sorrias-lhes, na inquietude do simples homem sonhador, que nada fez mas que tanto criou.
Crê-me, que todas as flores pelas quais passaste, souberam-se flores, porque o teu amor lhes deu consciência. Olho-as, e nelas vejo a sua cara. Porque para ter consciência das menores coisas é preciso amar. E amo.
Ali sentada, chorei. Senti a língua portuguesa na sua completa dimensão. Cheirei-o.
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diarismos

Acaso Rosa

Serão 90, este mês, Rosa, e continuas a escrever-me poemas…

Este último, dizes que te pegaram na mão; e que veio do acaso largado no fundo de uma gaveta do móvel da sala.

Estou em crer que não temos vida.

Temos acasos, e a vida surge-nos.

 

Levar-te-ei a lupa, Rosa, que eles, às vezes, são manhosos.

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